Existe um ditado bastante conhecido que provavelmente você já ouviu em algum momento da vida: “Você colhe o que planta”
É uma metáfora bem simples na verdade. Se você faz (planta) coisas boas, recebe (colhe) coisas boas. Se plantar coisas ruins vai colher coisas ruins.
Eu concordo em partes com essa frase no sentido de que devemos fazer o bem para nós, os outros e a sociedade como um todo. Plantar o bem para mim poderia envolver me alimentar de forma saudável, fazer exercícios físicos, cuidar da minha saúde mental, nutrir boas relações, estudar, etc. Provavelmente irei colher coisas boas dessa maneira. Da mesma forma posso plantar o cuidado com outros, exercer meus deveres enquanto cidadão, ajudar pessoas, etc. A sociedade irá se beneficiar.
O que me incomoda nessa frase é o deslocamento da responsabilidade totalmente no sujeito. Voltando para metáfora de plantar e colher: plantar algo é apenas uma parte da história. Existe o tipo de solo, a quantidade de chuva, a presença de pragas, a temperatura, a época do ano, a qualidade da semente, a forma como ela foi cultivada…Em outras palavras, existe uma enorme quantidade de variáveis entre plantar algo e colher alguma coisa. Duas pessoas podem plantar exatamente a mesma semente e ainda assim terem resultados completamente diferentes.
Meu ponto aqui é justamente lembrar que nenhum comportamento ou experiência humana surge por um único motivo. Sempre existe um conjunto de influências interagindo ao mesmo tempo, sejam genéticos, contextuais, história de vida, cultura, etc.
Algumas pessoas crescem em ambientes que oferecem mais recursos emocionais, apoio social ou oportunidades. Outras começam a vida em contextos muito mais difíceis. Algumas passam por eventos inesperados que mudam completamente o rumo das coisas. Outras contam com redes de proteção que ajudam a amortecer momentos difíceis. E tudo isso interfere no resultado final.
Isso significa que nossas escolhas não importam? Muito pelo contrário, elas importam muito. Afinal, plantar continua sendo uma parte fundamental do processo e um ato do sujeito, que só pode ser feito por ele. Mas talvez seja mais realista pensar que plantar não garante automaticamente a colheita.
Certamente na vida você vai fazer escolhas cuidadosas e mesmo assim encontra dificuldades no caminho. Até pode ser que faça escolhas ruins e, por uma série de circunstâncias, ainda assim acabe se saindo bem. A vida humana costuma ser menos parecida com uma equação simples e mais parecida com um sistema complexo, cheio de variáveis interagindo o tempo todo.
Esse ditado popular continua sendo útil como um lembrete de responsabilidade sobre aquilo que fazemos. Mas ele pode se tornar um pouco injusto quando começa a ser usado como explicação completa para tudo que acontece na vida de alguém,
''porque entre plantar e colher existe todo um ecossistema funcionando e ele raramente depende apenas de você''.