Certa vez eu estava atendendo uma mulher que dentre suas queixas, a principal estava na comunicação ineficaz com seu marido. Antes de me estender sobre já deixo claro que algumas características aqui serão fictícias por questões éticas de sigilo profissional. Algo que particularmente me chamava atenção nessa relação era a dinâmica passiva de ambos na relação, tanto da esposa quanto do marido: conflitos eram evitados por ambos o tempo todo, conversas difíceis eram sempre postergadas, ninguém demonstrava sentimentos carregados… A linha condutora do matrimônio estava tão fina e superficial que um sopro bastava para rompê-la. E foi aí que a paciente chegou no meu consultório.
Primeiro é meu dever explicar o que é assertividade para os leitores que me acompanham. Basicamente é uma postura pela qual você expõe suas ideias/sentimentos/pensamentos/posições, com clareza e sem ofender o outro. Simples assim (nem tanto né…). É mais fácil falar do que fazer quando se trata de assertividade pois existem muitos atravessamentos, muitas coisas que influenciam a postura não-assertiva (seja passividade ou agressividade).
Voltando a minha paciente…
Como relatei anteriormente a postura do casal era passiva, ambos eram inassertivos e isso influenciava muito na relação como um todo: brigas que eram jogadas para debaixo do tapete e se acumulavam até transbordar; não conseguiam comunicar atitudes que não gostavam do cônjuge; sensação de afastamento entre os dois; dificuldade de perspectivas futuras porque não conversavam sobre grandes decisões; etc. E o pior de tudo é que o casal demonstrava que se amava com várias atitudes, tinham valores compatíveis e objetivos semelhantes, ou seja, tinham tudo para dar certo. Mas a maldita passividade estava corroendo a estrutura conjugal.
A gota d’água que fez a paciente buscar minha ajuda foi um dia normal de domingo, em que ambos iam à missa na manhã e depois almoçavam frango assado (tradição da região onde moravam). Vale ressaltar que nesse dia a paciente estava especialmente abalada com pensamentos envolvendo uma suspeita de traição do marido e ele estava quieto o dia inteiro (como de praxe). Então dado esse contexto, na parte da tarde eles foram passear no parque da cidade. No caminho para o parque a paciente avistou uma confeitaria (e naturalmente estava mais suscetível a comer doces naquele dia) e pediu para o marido parar ali e comprar um cookie, ao passo que o marido respondeu sem nem olhar para ela algo como ‘’você já comeu bolo de manhã, vai comer mais doce?’’. Um comentário grosseiro de fato, mas a cascata que ele desencadeou foi sem precedentes. A esposa ficou extremamente irritada com esse comentário e se iniciou uma briga que foi aumentando até discutirem coisas que tinham acontecido há vários anos atrás e estavam debaixo do tapete, como comentários em fotos do facebook lá de 2015. Essa briga gerou semanas de afastamento entre os dois. É claro que não foi o comentário sobre o cookie meu caro leitor. Foi justamente a passividade que levou a esse ponto.
E essa é minha mensagem aqui: passividade tem seu tempo e seu espaço, bem como a agressividade, quero dizer que todo tipo de comunicação é válida desde que seja adequada a situação e contexto. Se você só utilizar UM ÚNICO TIPO de comunicação certamente terá problemas, ESPECIALMENTE com as pessoas mais próximas de você. Então meus caros e minhas caras, prestem atenção nisso antes que o próximo ‘’cookie’’ leve vocês à semanas de conflitos intensos.