Vou viajar um pouco mas vai fazer sentido. Você já presenciou uma criança aprendendo
algo? – claro que sim, você já foi uma criança rs – Mas falando sério agora, você já prestou
atenção como elas aprendem a relacionar palavras com coisas no mundo? Isso é algo que
sempre me chamou atenção. Eu lembro de quando eu era pequeno e perguntei para minha
mãe como ela conseguiu me ensinar tantas palavras, e ela sem graça me respondeu que as
crianças aprendem sozinhas, observando. É uma querida minha mãezinha. Realmente uma
das vias pelas quais as crianças aprendem é observando e imitando, e se voltarmos mais
ainda quando as crianças mal formam palavras, você poderá observar que elas ficam
falando sílabas o tempo todo, não necessariamente palavras, e quando elas chegam perto
de uma palavra que realmente existe, os adultos ficam alegres, sorriem, pulam… enfim
reforçam positivamente esse comportamento (desculpem pelo jargão skinneriano, é mais
forte que eu) e ele se consolida/mantém.
Agora vamos escalar um pouco a complexidade da coisa. Imagine que uma criança já sabe
falar várias palavras, está aprendendo a formar frases e fazer relações entre coisas. Como
você ensina para uma criança o que é uma emoção? Muitos pais têm dificuldade nisso.
Toda criança aprende rapidamente a falar a palavra ‘’bola’’ e relacionar com o objeto ‘’bola’’,
e em poucos anos já consegue ler a palavra ‘’bola’’ e rapidamente relacionar com o objeto e
com a palavra falada. Existe uma relação clara entre objeto, fala e escrita. Agora, quando
falamos de emoções, o buraco é mais embaixo (ou seria ‘’o buraco é mais interno’’?). O que
eu quero dizer é: como você ensina para uma criança o que ELA (e só ela) está
experienciando dentro de si? É muito mais complexo do que ensinar a criança a falar bola.
Muitos adultos que eu atendo até hoje não sabem descrever direito o que passa dentro
deles.
Ou seja, aprender a nomear emoções é um processo relacional e social. Só reconhecemos
o que acontece dentro de nós quando alguém se importa e tenta nos ajudar a descrever
aquilo, mesmo tendo poucas pistas (ex: quando você tem dor de barriga e coloca a mão no
estômago, alguém pode falar ‘’ei você está com dor de barriga’’). Quando não temos
pessoas que nos ajudam esse processo fica muito difícil, e pode ser que você não aprenda
corretamente. Pior ainda, você pode ter crescido em um ambiente que sinalizava o tempo
todo que o que você sentia internamente era ‘’errado’’, como quando um pai fala para o filho
que ele não deve chorar porque ‘’homem não chora’’. Chamamos isso de invalidação, umas
das piores coisas que você pode fazer com outro ser humano.
O autoconhecimento tem origem social. Somente quando o mundo privado de uma pessoa
se torna importante para os outros é que se faz importante para ela mesma - B. F. Skinner
A ansiedade é uma experiência profundamente sensorial: falta de ar, aperto no peito,
vertigem, tremores, sudorese, inquietação. Mas ela não se limita ao corpo. A linguagem
ocupa um lugar central nesse fenômeno, por meio de pensamentos intrusivos e
catastróficos, crenças sobre si mesmo, sobre o mundo e sobre o futuro, além de
preocupações que se repetem sem descanso. Corpo e palavra se entrelaçam em uma
dança maquiavélica, um influenciando o outro. É justamente aí que mora o núcleo da minha
reflexão: você aprendeu a nomear a ansiedade? Que papel a linguagem desempenha na
manutenção desses sintomas? E até que ponto certas palavras, imagens e antecipações
(como pensar que vai gaguejar numa apresentação) acabam intensificando ainda mais as
reações do próprio corpo?